segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Anjo Negro


ANJO NEGRO

Naquele dia, saí do trabalho apressada. Passava um pouco da uma da tarde e eu tinha uma audiência marcada num juizado de pequenas causas ali perto. Fui caminhando pela calçada, ansiosa e preocupada em chegar a tempo para o compromisso.

Poucos metros depois do prédio onde trabalho, quase em frente à Igreja de Santo Antônio, percebi um homem levemente inclinado em direção ao chão. Ele era negro e aparentava estar na faixa dos vinte e poucos anos. Estava mal vestido, eu diria até andrajoso. Tomei-o por um pedinte ou morador de rua.

Fiquei curiosa ao vê-lo naquela posição. Sem perceber, fui diminuindo o passo até conseguir entender o que se passava. Seguindo a direção do seu olhar, vi um pequenino filhote de passarinho encolhido num cantinho perto do muro.

A essa altura eu já tinha parado ao lado da cena que se desenrolava, balbuciando:

- Um passarinho...

O rapaz assentiu, com um leve sorriso triste e preocupado. Ele falava num português hesitante, com forte sotaque estrangeiro cuja origem eu não consegui identificar. Disse-me que estava ali tomando conta do bichinho para que nada de mal lhe acontecesse.

O relógio não tinha parado, os minutos continuavam a passar.

Vum, vum, vum. Meu cérebro deu três voltas completas em meio segundo.

O filhotinho não podia ficar ali desprotegido e eu não podia ajudá-lo naquele momento. Voltei-me para o rapaz negro e falei:

- Moço, eu preciso resolver um problema aqui perto, mas logo estarei de volta. O senhor poderia tomar conta dele até eu voltar?

Mais uma vez ouvi a voz mansa do rapaz, desta vez levemente mais animada, comprometendo-se a esperar por mim.

Saí dali ainda mais apressada, agora que estava ciente de ter perdido alguns minutos que poderiam frustrar o planejamento que eu tinha feito inicialmente.

Consegui chegar a tempo para a audiência e, depois de uma conciliação frustrada, refiz meu caminho de volta até o muro da igreja.

O filhotinho de asas continuava no mesmo lugar e pulava alegremente de um lado para o outro, sem se afastar do seu guardião. O rapaz me ajudou a colocá-lo cuidadosamente dentro de uma caixa de sapato que eu tinha conseguido numa sapataria quando fazia o caminho de volta.

Depois de fazer vários furinhos na caixa de papelão para permitir que o passarinho respirasse normalmente, e depois de fechá-la com fita crepe para assegurar que ela não se abrisse no caminho, encaminhei-me para o ponto do ônibus, onde pouco tempo depois embarquei no veículo que me levaria para casa.

Quarenta minutos depois, ao descer na minha parada, eu já sabia exatamente o que deveria fazer. Fui diretamente à casa de uma vizinha que adora passarinhos e que está acostumada a cuidar deles. Contei tim tim por tim tim tudo o que  tinha acontecido, e com alívio deixei aquele pequeno serzinho nas mãos de Cleide, pedindo encarecidamente que ela cuidasse dele até que ele pudesse voar sozinho, mas fazendo-a prometer que o deixaria livre assim que isso acontecesse.

Depois disso, dirigi-me finalmente à minha própria casa, satisfeita com mais um final de aventura  afortunado.

Nos dias que se seguiram, procurei em vão por aquele rapaz na rua do meu trabalho. Queria contar a ele o final feliz e mostrar que tinha valido a pena todo o cuidado que ele tinha dedicado à pequena ave. Queria que ele desfrutasse da especial recompensa que só experimenta quem é sensível e consegue perceber o que a maioria simplesmente não enxerga. Mas ele já não estava mais por lá.

Os mesmos pedintes continuaram se aglomerando na frente da Igreja de Santo Antônio - homens, mulheres e crianças maltrapilhas implorando por trocados e por um pedaço de pão -, mas nunca mais eu vi aquele homem de sotaque forasteiro.

Depois de algum tempo, aquele episódio foi redimensionado na minha mente e eu comecei a pensar que tudo aquilo parecia muito curioso. Um indivíduo que eu nunca tinha visto antes e que nunca mais voltei a ver, um homem de pele escura e fala mansa, de sotaque diferente e de origem desconhecida. Um pedinte sensível e amoroso, que tinha aparecido e desaparecido sem deixar vestígios.

E eu, que sempre vivi à procura de sinais divinos e recados de outro mundo, passei a acreditar que aquela criatura tinha sido nada mais nada menos que um anjo negro que tinha cruzado o meu caminho sem fazer alarde. Um anjo negro como tantos outros que devem andar despercebidos no meio de nós, ajudando-nos a cuidar dos animais indefesos que Deus colocou ao nosso lado aqui na Terra.

***
ZD 15/10/2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O famigerado CVA

O FAMIGERADO CVA
(Marcus Acioly)


Finalmente a polícia (quem poderia ser senão a força?) às vésperas do carnaval, desmascarou – este é o termo - e desbaratou o famigerado Centro de Vigilância Ambiental do Recife (CVA), que transformou o ex-matadouro (de bois) dos Peixinhos em Matadouro de Cães (que alguém ousou chamar de nascedouro). A competente titular da Delegacia de Polícia do Meio Ambiente (guardem este nome), Nely Queiroz, responsável pelo inquérito, apurou as denúncias de maus tratos e sacrifícios de animais naquele degradado ambiente e indiciou  três elementos - digo - três maus elementos. Quem são eles, leitor? Diretores do CVA: o contumaz e empedernido assassino de cães – Amaro Fábio de Albuquerque Souza- e seu sanguinário comparsa, Otoniel Freire de Barros Neto. Os tais foram indiciados por crimes contra a administração ambiental e ainda vão responder, com o veterinário responsável técnico do CVA – José Antonio da Silva Santos –, pelo crime de maus tratos  contra animais. Imagine o leitor em que faculdade estudou esse monstruoso veterinário – que deveria ter de imediato, carteira e diploma cassados pelo conselho de Medicina Veterinária - para matar cães saudáveis e indefesos, envergonhando a nobre profissão.

A investida policial foi chamada, adequadamente, de Sexta Feira 13, pois tudo não passou de exibição e reprise de um verdadeiro filme de terror. Aliás, a foto publicada no jornal, exibindo cães mortos e empilhados, mereceria como epíteto macabro a frase de Joseph Conrad: “O horror! O horror! As estatísticas são alarmantes: no ano de 2010 foram sacrificados 4.334, e no ano de 2011, 2.494. Mesmo assim, os números do CVA ainda são mentirosos, pois se o portal anunciava, entre os meses de julho e dezembro de 2010, 691 casos, as fichas do Centro registraram 962 casos, uma diferença de 271 mortes. O caso do CVA é, realmente um caso de polícia. Hitler, se se dedicasse aos cães, não faria por menos. Diante desses três serial killers, a abominável Kamilla, que torturou e assassinou a cadelinha yorkshire chamada Lana, em Goiás, não passa de uma marginal  dente de leite. O tal Amaro ainda foi levado a delegacia e autuado em flagrante, mas pagou fiança (ou pagaram por ele) e foi liberado, claro, para brincar o carnaval. A esperança –ou esperância” (espera + ânsia) é que o ministério Público de Pernambuco também foi solicitado para apurar as irregularidades criminosas do CVA e a OAB-PE vai dizer da legalidade do órgão, que não tem regulamento. Não é possível que a prefeitura cruze os braços diante de tal morticínio ou tente justificar que, no Recife, a morte indiscriminada de animais tem respaldo jurídico e legal!

Como o filosofo grego – Hegesias – que pregava o suicídio, mas ele próprio não praticava, por não ter quem pregasse em seu lugar, morre nos Estados Unidos, aos 83 anos, o médico Jack Kevorkian, conhecido no mundo como o Doutor  Morte – mestre dos “suicídios piedosos”. Kevorkian, que se tornou filme com Al Pacino, dirigido Barry Levinson, reabre o questionamento da eutanásia, que (do grego – euthanasia – “morte sem sofrimento) só é cogitada (e nunca deveria ser) no caso de doentes com afecção incurável e dores intoleráveis. Não obstante, o CVA do Recife, embora usando cães como “cobaias”, pode ofertar ao mundo seu know–how: a sua competência e experiência e exercício na arte de matar. Leitor, é o homem do Terceiro Mundo ou do Terceiro Milênio que se tornou tão incivilizado! Como ainda podemos ter homens bárbaros e brutos como esses três carrascos de cachorros? Por favor, olhe demoradamente para os olhos de um cão, de qualquer cão (os mortos da foto têm os olhos fechados) e leia aquela frase –dita por Kafka- escrita no reverso:”Eis que um dia, no fundo dos olhos do cão, a nossa própria velhice nos olha lacrimejante”.

Há outra esperância, a de que, quando os três verdugos chegarem e baterem à porta do inferno, sejam recebidos pelo Cão  Cérbero que, com suas três bocas, em vez de abocanhar –à Dante Alighiere – os três maiores traidores da história – Judas, Brutus e Cássio –, possa segurar nos dentes os três maiores matadores de cães da história: Amaro, Otoniel e José Antônio. 

Ai de ti Recife! Ai dos teus animais, das tuas árvores!

·        Marcus Acioly é poeta

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

PARQUE DOIS IRMÃOS: NÃO HÁ MAIS DEGRAUS A DESCER!

Repassando texto que recebi hoje, sobre o péssimo estado dos animais do Zoo de Dois Irmãos, em Recife.
 
"Olá pessoal!
 
Escrevi hoje o texto abaixo inspirado devido a uma visita que fiz ao Parque Estadual Dois Irmãos, o zoológico de Recife.
Espero que sirva para inspirar e/ou mobilizar mais pessoas a fazerem algo para mudar a trágica situação daquele lugar.
 
Abraços!
 
PARQUE DOIS IRMÃOS: NÃO HÁ MAIS DEGRAUS A DESCER!
Visito o zoológico do Parque Dois Irmãos há muitos anos, desde a infância. Se me recordo (e tenho boa memória), nunca passei um ano sem fazer, ao menos, uma visita. Por acasos do destino e do curso de biologia, consegui realizar um estágio lá na Divisão de Veterinária e Biologia durante o ano de 2007 até meados de 2008. Na época e mesmo agora, olhando para trás, percebo quão enriquecedora foi esta experiência. Não só aprendi coisas novas sobre biologia e manejo de animais em cativeiro, mas também sobre relações humanas, e fiz amizades tanto com pessoas quanto com animais.
Tristemente, é, em nomes destes últimos, que me vejo forçado a redigir estas palavras. Hoje, 17/02/2012, mesmo diante das condições adversas (chuva), fiz mais uma visita ao zoológico. Tinha esperanças (poucas e ilusórias, admito), assim como em todas as visitas que realizei desde que sai do estágio, de encontrar o lugar em melhor situação e os animais com condições de vida melhores. E foi, como nas visitas anteriores, mais uma grande decepção. Talvez maior e mais chocante do que as predecessoras, pois a chuva serviu para reforçar quão baixas estão as condições de vida dos animais cativos. Além dos recintos arcaicos de concepção ultrapassada onde muitos se encontram, eles ainda têm que habitar um ambiente úmido, com escoamento de água e ventilação deficientes, criando um verdadeiro “meio de cultura” para fungos, bactérias e outros organismos potencialmente patogênicos. O resultado disso é que um bom número daqueles “amigos” animais que fiz durante o estágio já não se encontram mais lá. Entre eles incluem-se mamíferos de médio e grande porte, animais carismáticos e que chamam a atenção, alguns pertencentes até mesmo a espécies ameaçadas de extinção. 
Sai desta visita ao zoológico mais perplexo e mergulhado em pensamentos do que de costume. Me pergunto se outros visitantes, aqui e acolá, também não saíram com os mesmos sentimentos. Enquanto escrevo estas palavras, me pergunto onde estão as ONGs de defesa ambiental e animal de PE? Será que estão caladas porque se venderam ao governo do estado? Ou porque só se preocupam com cães e gatos de rua? Claro que devemos nos preocupar com os animais de rua (eu também me preocupo), mas não podemos - nem devemos - esquecer do bem-estar dos animais selvagens cativos mantidos nos zoológicos daqui do estado. E a imprensa? Será ela tão míope ou irresponsável ao ponto de não ler, ou assistir, suas próprias matérias feitas sobre o Parque Dois Irmãos antes de fazer as seguintes? Ou será que simplesmente engole os argumentos rasos e estapafúrdios da equipe do zoológico e secretaria de meio ambiente? Do governo do estado, eu não espero nada. Se este não se preocupa em fornecer qualidade de vida aos seus cidadãos, porque se importaria com os animais do zoológico? Como disse certa vez a amigos e colegas do curso de biologia, por mais espetaculares e magníficos que sejam, leões, tigres, onças e chimpanzés não votam. Estes e vários outros animais do zoológico dependem de nós para sermos suas vozes.
Algum tempo atrás, uma amiga brincou dizendo que o zoológico do Parque Dois Irmãos era um “Titanic”, afundando rumo às profundezas. Infelizmente, nesse caso, ao contrário do famoso navio, não há botes salva-vidas para nenhum dos seus “passageiros” animais. Eles estão fadados a ficarem a bordo deste “navio”, seja lá qual for o curso que ele tome. São como cegos numa escada, subindo ou descendo os degraus, totalmente dependentes da nossa orientação, que - no presente momento - parece conduzi-los à derrocada. Tragicamente, torno-me cada vez mais ciente de que no zoológico do Parque Dois Irmãos, que já foi referência no Norte/Nordeste, está chegando a hora em que não haverá mais degraus a descer!"

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pobre Ferrugem, atacado por um pitbull feroz

Conheci Ferrugem há alguns anos. Ele era um dos quatro cãezinhos de Seu Zezinho (mais conhecido como  Ximbica), um senhor que mora perto de mim e a quem consigo ajudar um pouco, regularmente. Seu Zezinho aposentou-se há dois anos. Ele era varredor das ruas sossegadas da Universidade Federal de Pernambuco. Um homem de coração muito bom, com uma visível deficiência intelectual. Todos os dias, quando largava a vassoura no final da tarde, ia feliz da vida alimentar os cães daquelas redondezas, pedalando sua bicicleta, desviando dos motoristas que raramente respeitam os direitos dos ciclistas. Hoje aposentado, Seu Zezinho ainda sai para alimentar os bichinhos de rua. Seus mesmos, restaram apenas  (um cão resgatado e tratado com o auxílio total de Ariene e seu grupo de voluntárias, cujo tratamento incluiu a cirurgia de retirada de um dos seus olhos, o qual estava praticamente solto na órbita quando ele foi acudido por Seu Zezinho), Ferrugem e outro cachorro que está, pelo que ele me disse, temporariamente abrigado em sua casa.

Sábado passado, Seu Zezinho bateu lá em casa pedindo ajuda mais uma vez. No dia anterior, um pitbull tinha atacado o pobre Ferrugem, um cãozinho pacífico e sem raça definida, velhinho e inofensivo. Na hora do ataque, Ferrugem chegou a desmaiar. A fera não o largava, mesmo recebendo pauladas no dorso.

Fiquei sabendo que esse animal, o pitbull, fica solto pelas ruas de manhã cedo. Vizinhos contaram que um dia desses ele atacou e matou um cavalinho. Esses mesmos vizinhos simplesmente resolveram não caminhar mais pela área nesse horário, e eu me pergunto por que será que as soluções são sempre assim, omissivas, quando as pessoas poderiam fazer algo para efetivamente mudar uma situação difícil, desagradável. Vivendo no meio de uma comunidade assim, numa país que não preza pela educação, onde se fala muito em cidadania, sem que se entenda até onde vai o alcance da palavra, um indivíduo que seja minimamente diferente vira alvo de crítica, de chacota e até de violência.

Levei Ferrugem ao veterinário. Seu estado era lastimável. Além dos talhos sangrando no pescoço, estava com ascite (barriga d'água) e respirava com muita dificuldade. Com doze anos de idade, Ferrugem já devia estar com comprometimento cardíaco, hepático e renal, mas certamente a agressão contribuiu para o agravamento de todo o seu  quadro. Apesar dos cuidados, Ferrugem morreu na última madrugada. A barriga estava cada vez maior e ele não conseguia mais urinar. Pressenti que ele não passaria mais um dia vivo e falei isso a Seu Zezinho. Em casa, fui dormir desassossegada, pedindo a Deus que o levasse logo, com o mínimo de sofrimento. Hoje de manhã, quando passei para visitá-lo, vi no quintal um pacote de tamanho médio, embrulhado num saco de ração - ali estava o pobre Ferrugem. Implorei a Seu Zezinho para enterrá-lo, para não deixar que seu corpo fosse levado pelo caminhão do  lixo, mas não tenho certeza de que o pobre velho vá fazer o que me prometeu.

Desde sábado, tenho falado muito sério com Seu Zezinho. Tenho dito a ele que ele não tem mais condições de ficar criando animais.  Ele é pobre, idoso e está vivendo sozinho. A mulher dele está doente, sofrendo "daquela doença, impressão, que faz as pessoas quererem morrer". Infelizmente, precisei dizer a Seu Zezinho que, embora ele tenha esse coração enorme, ele não pode trazer para casa animais de quem ele não pode cuidar, que ele não pode ficar confiando em mim para resolver os seus problemas. Seu Zezinho não tem discernimento nem mesmo para administrar medicamentos nos horários determinados, e até isso eu tenho que me preocupar em fazer. Só que tem hora que eu não estou disponível, tem hora que eu não estou suficientemente forte para vivenciar esses dramas.

No sábado, depois que deixei Ferrugem de volta em sua casa, ainda indignada com a irresponsabilidade dos donos do pitbull agressor, bati na casa de uma pessoa que sabidamente tem um cão dessa raça. Cheguei lá e falei com a esposa do dono. Cheguei mansamente, contando com tristeza o que havia acontecido e dizendo que eu estava à procura do animal  para explicar aos donos que ele não poderia estar solto pelas ruas, mesmo que fosse às cinco da manhã. A mulher mostrou o animal dela, um pitbull branco, e, surpresa, perguntou se tinha sido ele, coisa que ela duvidava, porque o animal é manso. Eu disse que não conhecia o agressor, mas que tinham falado que ele era preto, então certamente não era o mesmo. Na saída, disse a ela que, se eu estava enganada, que ela antecipadamente me desculpasse.

Voltei pra minha casa e meia hora depois a campainha tocou quatro vezes, com uma insistência mal educada. Corri para abrir o portão e me deparar com o dono do cachorro, um antigo colega de escola, dos meus tempos de menina. O homem estava numa moto, carregando seu cachorro na frente do veículo, ele próprio parecendo um pitbull ameaçador. Perguntou se o cão dele tinha atacado alguém, porque eu tinha à casa dele para fazer a denúncia. Tentei explicar como tudo realmente ocorreu, mas ele só queria falar, gritar e me xingar. Uma verdadeira baixaria. Depois que disse o que quis, deliberadamente ignorando o que eu dizia, saiu chispando com o animal e com sua moto, a qual tem um adesivo de pitbull na frente, acho que para combinar mais com ele do que com qualquer outra coisa. O homem estava visivelmente desequilibrado e eu fiquei sabendo depois que ele bebia muito e que teve que parar de beber para não morrer.

Não consigo aceitar a maneira como esse tipo de problema sempre se desenrola. Nós, que tomamos as dores dos animais, temos que ser vítimas da violência, temos que ser constrangidos e humilhados porque não há um respaldo judicial para quem age de forma correta. Nós somos os estranhos no ninho, não a maioria cruel e insensível. Nós não podemos agir ou denunciar sem temer uma represália à nossa família, à nossa casa, aos nossos próprios animais. Quem deveria ter medo, não tem. Quem desrespeita as leis que protegem os animais dorme tranquilo, enquanto a cada dia o coração dos justos enfraquece e adoece.

Por fim, queria dizer que estou muito cansada, muito cansada, muito cansada. Cansada de ver as coisas ruins acontecerem e se repetirem indefinidamente. Cansada de me indispor com as pessoas, de brigar com gente por causa de bicho. Cansada de sonhar com um mundo cheio de gente boa e consciente, que respeite de verdade gente, bicho e plantas. Cansada de sonhar com o Paraíso.

Zarela

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ontem à tarde eu estava voltando de Maria Farinha com mamãe e Renan, meu sobrinho de quinze anos.
 
Eu vinha dirigindo calada, ouvindo a transmissão do final do Clássico dos Clássicos pelo rádio. Estava muito chateada porque o Sport estava perdendo para o Náutico por dois a zero. O jogo já estava mais ou menos nos quinze minutos do segundo tempo quando notei que os poucos carros à minha frente na estrada estavam reduzindo a velocidade, aparentemente tentando desviar de alguma coisa no solo. No acostamento do lado direito, um pequeno aglomerado de pessoas também olhava para o meio do asfalto.

Apreensiva, também diminuí a velocidade. Foi aí que vi o corpo de um cãozinho cinzento e peludo estendido no meio da estrada, a boca completamente aberta num último esgar de susto e dor. Sem pensar, esquecendo até de ligar a sinalização de parada, direcionei o carro o mais lentamente que pude para o acostamento à direita.

Enquanto manobrava, com a mão esquerda para o lado de fora da janela eu sinalizava para que os carros que vinham atrás  também diminuíssem a marcha e vissem o corpo do animal no chão. Por mais que estivesse morto, eu não queria que o seu corpo fosse estraçalhado e destruído pelos veículos que passavam, rapidamente se transformando numa massa disforme e bizarra.

Parei o carro e desci descalça mesmo, sentindo a rudeza do asfalto machucar os meus pés. Inadvertidamente, mal olhava para os carros que passavam. Minha atenção estava focada em proteger o pobre ser estendido ali a poucos metros de onde eu me encontrava. Do outro lado da via, uma mulher olhava para mim e gritava para que eu pudesse ouvi-la.  Ela estava na frente do que parecia ser a sua casa e gesticulava com as mãos, esfregando os dois indicadores. Ela dizia:

- Marido e mulher. Marido e mulher.

Eu não estava entendendo nada. De repente percebi que ela apontava enfaticamente para o acostamento atrás de mim, onde algumas pessoas observavam tudo. Para minha desolação, um outro cachorro estava deitado ali ao lado, sendo observado por gente incapazs de tomar uma iniciativa para ajudá-lo. Ele tinha o pelo castanho dourado meio tigrado, lembrando a cor de uma castanha do Pará.  Nas extremidades das patas, o pelo era branquinho, assim como era branca uma parte logo abaixo do pescoço.

O animal estava com os olhos bem abertos, parecendo extremamente amedrontado. Havia sangue no chão de terra bem abaixo do seu focinho machucado e eu percebi que havia também um corte  pequeno no meio da sua testa, entre os olhos. Ele não se mexia, exceto pelos tremores constantes.  Eu me perguntava qual poderia ser a extensão das lesões provocadas pelo atropelamento.

Mamãe achava que ele tinha quebrado uma pata. Aquilo me deixou ainda mais preocupada. Pata quebrada? Isso significava dor lancinante, dificuldade para locomovê-lo sem sedação, e, muito mais preocupante, dependendo do desenrolar daquela história, a dificuldade em conseguir um adotante para ele.

Minha cabeça estava a mil. Ainda atordoada, voltei minha atenção  novamente para o corpo no  meio da pista e vi que dois rapazes estavam retirando o bichinho do lugar onde ele havia sido atingido. Eles estavam carregando o corpo pelas patas, um segurando as dianteiras, outro as traseiras. Fiquei aflita porque aquela não me parecia a melhor maneira de carregar alguém atropelado. Mesmo que já estivesse morto, meu Deus, eu achava que o cachorrinho merecia um tratamento melhor do que aquele que lhe estava sendo dispensado.

Marido e mulher.

Naquele instante percebi o que a senhora do outro lado da pista estava tentando dizer. O cãozinho morto era uma fêmea, ao passo que o outro estendido ali perto era um macho.
Pelo que pude entender, os dois eram amigos, namorados ou... marido e mulher!

Agora que os meninos tinham deixado o corpo inerte da peludinha num canto, a mulher tinha atravessado a rua e agora chutava aquele corpo sem vida. Não era um chute com maldade. Era, sim, o chute de uma pessoa com pouca sensibilidade, que averiguava se daquele corpo sairia alguma reação. Eu estava ficando quase louca de exasperação. Precisava ser pelo menos duas naquele momento, uma para cuidar do machinho ferido e outra para orientar aquela criatura humana que não parava de cutucar a pobre cadela morta. Pedi que por favor ela parasse de chutar daquele jeito e a mulher me deu uma olhada cheia de estranheza e abobalhamento. Fiz um esforço para falar delicadamente e expliquei que às vezes, apesar da aparência,  o animal na verdade não está morto, está apenas numa espécie de coma.

Enquanto isso o machinho atropelado continuava praticamente imóvel, apenas mexendo os olhos para lá e para cá, cheio de medo e tremendo sem parar. Comecei a perguntar aos rapazes e meninos que me rodeavam se eles sabiam quem era o dono dos animais. Segundo eles, a cadelinha era “de um homem ali que não ligava para ela” - claro que ele não ligava para ela! -, e o macho vivia perambulando com ela pelas nas redondezas, mas eles não sabiam se tinha dono.

Encaminhei-me para o carro. Eu precisava fazer alguma coisa.

- Renan, continua dois a zero?!

Ele balançou a cabeça afirmativamente, sem olhar para mim. Peguei uma manta que cobria o assento do banco traseiro e voltei para o lugar onde estava o atropelado. Uma coisa é certa: meus carros têm que ter capa para proteção dos bancos! Eu nunca sei o que pode acontecer, nem quando. Tenho que providenciar isso o mais rápido possível.

A mulher agora balançava a cadelinha morta puxando-lhe grosseiramente as patas dianteiras para um lado e para o outro. Mais parecia que ela estava pegando uma galinha morta, preparando-se para cortá-la em pedaços antes de temperá-la na cozinha. Gritei novamente com ela, pedindo que parasse de fazer aquilo.  Afinal,  eu não conseguia entender o que a mulher pretendia com aquilo.

Beirando o desespero, agachada junto ao cãozinho, levantei os olhos para a minha platéia, que agora tinha diminuído sensivelmente – a maioria tinha voltado a jogar bola no campinho  ali perto.

Ainda analisando os rostos que me fitavam com curiosidade, comecei a fazer a proposta costumeira nessas ocasiões:

- Se eu levar o cachorrinho e tratar dele, será que alguém daqui pode adotá-lo?

Movimentos de cabeça indicando dúvida e titubeação.

- Gente, eu não posso levá-lo comigo.

- Então traga ele de volta e deixe por aqui mesmo – respondeu um dos rapazes.

- É, talvez eu precise fazer isso mesmo. – falei. – Mas imaginem tirar uma criança da rua, dar a ela tratamento, abrigo, comida e amor, e, depois que ela estiver recuperada, simplesmente devolvê-la às ruas. Não é fácil.

Todos pareceram entender e concordar. Mas ninguém se prontificava a ajudar de verdade, ninguém trazia uma palavra que me desse a esperança de conseguir ajuda. O que eu não podia era ficar ali. Atarantada, voltei ao carro para decidir onde acomodaria o bichinho. A mala estava lotada. Ele teria que ir no banco de trás, com mamãe.

Voltei para perto do cachorrinho e, nessa hora, os rapazes mais velhos voltaram a fazer parte do grupo. Perguntaram se eu ia levá-lo. Respondi afirmativamente. Imediatamente, eles tomaram para si a tarefa de me ajudar a carregar o ferido. Foram todos uns amores.

Numa última tentativa de solucionar a questão, falei que provavelmente teria que trazê-lo de volta dentro de alguns dias e que precisaria contar com a ajuda de todos eles. Vendo minha fisionomia aflita e angustiada, eles disseram que eu poderia procurar por eles ali no campinho de futebol, pois todas as tardes eles estão batendo bola por ali.

Carregamos o pacotinho para o carro. O bichinho se deixou levar sem um gemido ou arreganhar de dentes. E olhe que devia estar com muita dor.

Já no carro, fui dirigindo e tentando imaginar um nome adequado para ele. O jogo continuava e o Sport não  conseguia se acertar, continuava apanhando do seu arqui-rival. O único nome que me vinha à mente era Kieza. Kieza, Kieza, Kieza! Mas eu não achava certo batizar meu novo amigo com o nome do artilheiro do adversário. Procurei um nome adequado entre o plantel do Sport, mas nenhum se encaixava direito.

Em certo momento, mamãe pediu que eu olhasse para trás. Enternecida, ela mostrava como o cãozinho tinha se aninhado com a cabeça no colo dela. Ele parecia bem mais tranquilo e seguro agora.  De alguma forma, ele tinha compreendido que estava protegido.

Foi aí que Renan, que também tinha se virado para olhá-lo, falou:

- O nome dele devia ser Harry Potter, por causa desse ferimento na testa, que vai deixar uma cicatriz como a do Harry.

De fato, o atropelamento tinha lhe deixado uma ferida pequena na testa, um pouquinho acima do espaço entre os olhos.

Muito bem. Um detalhe a menos com que me preocupar. O nome ele já tinha. Mas resolvi que seria apenas Potter, para que ele se acostumasse mais rapidamente com o som cada vez que fosse chamado.

Taciturna, fiz o resto do caminho até casa alternando meus pensamentos entre a decepção com o meu time e a preocupação com mais essa criatura que eu estava levando para tratar.

Puxa vida! E se eu não tivesse ido ver o meu tio doente em Maria farinha? E se eu não tivesse saído mais cedo, tivesse esperado pelo final do jogo? E se eu tivesse feito o outro caminho, indo pela beira-mar?

Ora, é verdade que talvez eu tivesse me poupado de mais uma situação estressante. Mas e ele, o Potter? O que teria sido dele? Será que alguém teria tomado alguma atitude para ajudá-lo?

Não, foi bom mesmo que eu estivesse passando por ali naquela hora. Vou me aperriar um bocado, vou ter algumas noites de sono agitado,  mas estou feliz de ter podido diminuir o sofrimento da pobre criaturinha.

Chegando a casa, acomodamos Potter num pequeno oitão coberto da casa de mamãe. Ele ainda estava meio desconfiado, mas não deu qualquer trabalho. Não quis comer, mas eu não insisti, deixei-o sozinho para que se ambientasse melhor. Percebi que estava cheio de carrapatos, e isso foi uma preocupação a mais no meu juízo.  Não posso ficar expondo meus próprios filhotes a esses parasitas, e uma praga de carrapatos é tudo de que eu não preciso agora.

Antes de ir dormir, fui ver Potter mais uma vez. Dessa vez ele comeu um pouco de ração. Fiquei alisando sua cabeça com carinho e ele começou a emitir um sonzinho de satisfação. Cada vez que eu parava, ele puxava graciosamente minha mão com sua pata, pedindo que eu continuasse com os afagos.

Hoje de manhã, aproximei-me do cantinho no oitão onde tinha deixado uma caixa de papelão para servir de abrigo para ele e chamei o seu nome. Ele levantou todo alegre, andando normalmente e balançando o rabo fino. Foi um alívio constatar que suas patas estavam perfeitas.

No meio da manhã, saí para comprar sabonete contra carrapatos e um carrapaticida para pulverizar no ambiente. Esperei o dia esquentar e me preparei para dar um bom banho em Potter. Ele é um doce de cachorrinho,  não esboça qualquer agressividade. Ficou ali tremendo de frio, me olhando com um olhar agradecido, apesar de tudo. É engraçado como ele praticamente entende o que eu falo e como já atende pelo novo nome.

Agora preciso correr na divulgação de Potter. Tenho que vaciná-lo e castrá-lo o mais rápido possível. Não tenciono deixá-lo naquela estrada novamente, a não ser que seja absolutamente necessário.
Não posso largá-lo ali depois de tê-lo feito experimentar carinho, cuidados e atenção. Depois de dar a ele comida numa vasilha limpa e decente. Depois de preparar um lugarzinho quente forrado com papelão para que ele não sinta frio à noite.

Mas a razão me diz que eu também não posso ficar com Potter. Peço a Deus  que me ajude a arrumar alguém que tenha muito amor para dar a ele, alguém que conheça o valor da amizade sincera de um cão e que permita que esse cachorrinho especial possa demonstrar toda a gratidão de que é capaz.