ASAS, PRA QUE VOS QUERO?
Em Recife, uma das cheias mais terríveis se deu em julho de 1975. Foi quando praticamente mais da metade da cidade ficou debaixo d’água e dezenas de pessoas morreram. Três dias depois da cheia, quando o povo ainda se recuperava da tragédia e tentava tirar a lama de dentro de suas casas, o pânico tomou conta da capital pernambucana.
A população entrou em desespero por conta do boato de que a barragem de Tapacurá havia se rompido, o que significava que o Recife seria completamente destruído, arrastado pelas águas em poucas horas. Levou algum tempo até que as autoridades conseguissem desmentir o boato, sob ameaça de prisão a quem fosse pego alardeando a iminência da tragédia.
Naquela época, Zenilson tinha dezesseis anos e morava com a mãe, a irmã e o padrasto numa casa no bairro de Casa Amarela. Zenilson adorava passarinhos. Tinha um azulão, um casal de periquitos, um curió e uma outra avezinha que ele não lembra se era uma patativa ou um caboclinho.
Os bichinhos passavam os dias enjaulados, cada um na sua gaiola pequena e apertada. Alguns diriam que a gaiola não era assim tão pequena. Mas, pendurados numa viga nos fundos da casa, os pequenos prisioneiros se viam limitados a centímetros de espaço quando poderiam ter a imensidão do céu para voar.
Os passarinhos eram queridos e muito bem tratados também. Zenilson sempre colocava água limpinha e deixava comida à vontade. O que o rapazinho não sabia é que aquelas gaiolas não passavam de uma prisão dourada. Se pudessem escolher, os pequeninos prefeririam buscar seu próprio alimento, voar quilômetros e quilômetros para encontrar um único grão diferente e saboroso.
Voar, voar, voar. Voar sem nunca cansar. Voar como todos os pássaros que nunca estiveram presos no pequeno espaço de um engradado. Voar e escolher árvores, frutos e novas paragens a cada amanhecer. Voar sozinhos ou acompanhados, conhecer novos amigos e companheiros. A vida em gaiola é uma tristeza de vida, mas quem tem passarinhos em casa não consegue enxergar isso, pensa que água e comida são tudo que importa.
Em julho daquele ano, Zenilson foi passar as férias em Fortaleza com a mãe e a irmã. O padrasto ficou sozinho em casa, tomando conta de tudo.
Quando aquela terrível enchente começou, rapidamente a água invadiu a casa de Zenilson, chegando a um nível jamais imaginado. A água subia, subia, subia. O padrasto chamou um primo de Zenilson para ajudar a levantar do chão tudo que pudesse ser salvo. Mas a água continuava a subir, devastadora e impiedosa. Quando os dois homens começaram a levar choque dentro de casa, foram obrigados a fugir para o telhado, onde permaneceram por um bom tempo, sofrendo com fome e com sede até que fosse seguro descer novamente.
Do lugar onde estavam, viam impotentes a vida de uma família ser engolida pela torrente que se formava dentro de casa. Até a geladeira boiava, batendo de um lado para o outro no meio de papéis, fotos, objetos e utensílios domésticos.
Dias depois, quando voltou para casa, Zenilson só pensava nos passarinhos que tinham ficado pendurados no alpendre. Entrou em casa devagarinho, o coração meio apertado de medo. Chegou ao alpendre e lentamente foi olhando na direção do lugar onde tinha pendurado as gaiolas antes de viajar. Mas ali não havia mais gaiola alguma. Com os olhos marejados e a alma consternada, Zenilson se deu conta de que as pobres criaturas também tinham sido vítimas da enchente. Soube depois, pelo padrasto, que os passarinhos foram encontrados com as patinhas para cima, os bicos abertos em desespero e agonia, presos nas gaiolas de ouro que os impediram de bater suas pequenas asas e voar para bem longe dali, para longe das águas incontroladas, para a salvação.
Sem conseguir se livrar completamente do sentimento de culpa desde aquele triste acontecimento nos seus dias de menino, Zenilson nunca mais quis criar passarinhos. Continua maravilhado pelo seu canto, encantado pelo seu voo perfeito, fascinado pelas suas cores, mas já não sente necessidade de ser dono de ninguém.
O menino que virou homem jamais poderia confinar novamente qualquer passarinho formoso numa prisão sombria de grades estreitas e torturantes. Com a alma boa e sensível, Zenilson compreendeu o tamanho da maldade que é manter um pássaro em cativeiro, praticamente espremido numa gaiola que permite apenas vislumbrar uma pequena amostra da imensidão do céu azul, o que chega a ser até pior e mais doloroso do que não ver nunca mais o firmamento.
Sempre que passa por uma gaiola pendurada, Zenilson olha com tristeza para o hóspede dentro dela e parece escutar o lamento melancólico de quem chora e lastima, a cada manhã cintilante, o momento em que ingenuamente se deixou apanhar numa arapuca malvada feita por um ser humano qualquer, um ser humano egoísta que traiçoeiramente se apoderou de uma vida feliz em troca de um punhado de trocados.
Curiosamente, hoje tem um lindo amigo beija-flor, que vem e vai na hora que quer, trazendo um pouco de beleza e poesia para a casa de Zenilson e sua mulher.
ZD - 24/novembro/2010