segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ontem à tarde eu estava voltando de Maria Farinha com mamãe e Renan, meu sobrinho de quinze anos.
 
Eu vinha dirigindo calada, ouvindo a transmissão do final do Clássico dos Clássicos pelo rádio. Estava muito chateada porque o Sport estava perdendo para o Náutico por dois a zero. O jogo já estava mais ou menos nos quinze minutos do segundo tempo quando notei que os poucos carros à minha frente na estrada estavam reduzindo a velocidade, aparentemente tentando desviar de alguma coisa no solo. No acostamento do lado direito, um pequeno aglomerado de pessoas também olhava para o meio do asfalto.

Apreensiva, também diminuí a velocidade. Foi aí que vi o corpo de um cãozinho cinzento e peludo estendido no meio da estrada, a boca completamente aberta num último esgar de susto e dor. Sem pensar, esquecendo até de ligar a sinalização de parada, direcionei o carro o mais lentamente que pude para o acostamento à direita.

Enquanto manobrava, com a mão esquerda para o lado de fora da janela eu sinalizava para que os carros que vinham atrás  também diminuíssem a marcha e vissem o corpo do animal no chão. Por mais que estivesse morto, eu não queria que o seu corpo fosse estraçalhado e destruído pelos veículos que passavam, rapidamente se transformando numa massa disforme e bizarra.

Parei o carro e desci descalça mesmo, sentindo a rudeza do asfalto machucar os meus pés. Inadvertidamente, mal olhava para os carros que passavam. Minha atenção estava focada em proteger o pobre ser estendido ali a poucos metros de onde eu me encontrava. Do outro lado da via, uma mulher olhava para mim e gritava para que eu pudesse ouvi-la.  Ela estava na frente do que parecia ser a sua casa e gesticulava com as mãos, esfregando os dois indicadores. Ela dizia:

- Marido e mulher. Marido e mulher.

Eu não estava entendendo nada. De repente percebi que ela apontava enfaticamente para o acostamento atrás de mim, onde algumas pessoas observavam tudo. Para minha desolação, um outro cachorro estava deitado ali ao lado, sendo observado por gente incapazs de tomar uma iniciativa para ajudá-lo. Ele tinha o pelo castanho dourado meio tigrado, lembrando a cor de uma castanha do Pará.  Nas extremidades das patas, o pelo era branquinho, assim como era branca uma parte logo abaixo do pescoço.

O animal estava com os olhos bem abertos, parecendo extremamente amedrontado. Havia sangue no chão de terra bem abaixo do seu focinho machucado e eu percebi que havia também um corte  pequeno no meio da sua testa, entre os olhos. Ele não se mexia, exceto pelos tremores constantes.  Eu me perguntava qual poderia ser a extensão das lesões provocadas pelo atropelamento.

Mamãe achava que ele tinha quebrado uma pata. Aquilo me deixou ainda mais preocupada. Pata quebrada? Isso significava dor lancinante, dificuldade para locomovê-lo sem sedação, e, muito mais preocupante, dependendo do desenrolar daquela história, a dificuldade em conseguir um adotante para ele.

Minha cabeça estava a mil. Ainda atordoada, voltei minha atenção  novamente para o corpo no  meio da pista e vi que dois rapazes estavam retirando o bichinho do lugar onde ele havia sido atingido. Eles estavam carregando o corpo pelas patas, um segurando as dianteiras, outro as traseiras. Fiquei aflita porque aquela não me parecia a melhor maneira de carregar alguém atropelado. Mesmo que já estivesse morto, meu Deus, eu achava que o cachorrinho merecia um tratamento melhor do que aquele que lhe estava sendo dispensado.

Marido e mulher.

Naquele instante percebi o que a senhora do outro lado da pista estava tentando dizer. O cãozinho morto era uma fêmea, ao passo que o outro estendido ali perto era um macho.
Pelo que pude entender, os dois eram amigos, namorados ou... marido e mulher!

Agora que os meninos tinham deixado o corpo inerte da peludinha num canto, a mulher tinha atravessado a rua e agora chutava aquele corpo sem vida. Não era um chute com maldade. Era, sim, o chute de uma pessoa com pouca sensibilidade, que averiguava se daquele corpo sairia alguma reação. Eu estava ficando quase louca de exasperação. Precisava ser pelo menos duas naquele momento, uma para cuidar do machinho ferido e outra para orientar aquela criatura humana que não parava de cutucar a pobre cadela morta. Pedi que por favor ela parasse de chutar daquele jeito e a mulher me deu uma olhada cheia de estranheza e abobalhamento. Fiz um esforço para falar delicadamente e expliquei que às vezes, apesar da aparência,  o animal na verdade não está morto, está apenas numa espécie de coma.

Enquanto isso o machinho atropelado continuava praticamente imóvel, apenas mexendo os olhos para lá e para cá, cheio de medo e tremendo sem parar. Comecei a perguntar aos rapazes e meninos que me rodeavam se eles sabiam quem era o dono dos animais. Segundo eles, a cadelinha era “de um homem ali que não ligava para ela” - claro que ele não ligava para ela! -, e o macho vivia perambulando com ela pelas nas redondezas, mas eles não sabiam se tinha dono.

Encaminhei-me para o carro. Eu precisava fazer alguma coisa.

- Renan, continua dois a zero?!

Ele balançou a cabeça afirmativamente, sem olhar para mim. Peguei uma manta que cobria o assento do banco traseiro e voltei para o lugar onde estava o atropelado. Uma coisa é certa: meus carros têm que ter capa para proteção dos bancos! Eu nunca sei o que pode acontecer, nem quando. Tenho que providenciar isso o mais rápido possível.

A mulher agora balançava a cadelinha morta puxando-lhe grosseiramente as patas dianteiras para um lado e para o outro. Mais parecia que ela estava pegando uma galinha morta, preparando-se para cortá-la em pedaços antes de temperá-la na cozinha. Gritei novamente com ela, pedindo que parasse de fazer aquilo.  Afinal,  eu não conseguia entender o que a mulher pretendia com aquilo.

Beirando o desespero, agachada junto ao cãozinho, levantei os olhos para a minha platéia, que agora tinha diminuído sensivelmente – a maioria tinha voltado a jogar bola no campinho  ali perto.

Ainda analisando os rostos que me fitavam com curiosidade, comecei a fazer a proposta costumeira nessas ocasiões:

- Se eu levar o cachorrinho e tratar dele, será que alguém daqui pode adotá-lo?

Movimentos de cabeça indicando dúvida e titubeação.

- Gente, eu não posso levá-lo comigo.

- Então traga ele de volta e deixe por aqui mesmo – respondeu um dos rapazes.

- É, talvez eu precise fazer isso mesmo. – falei. – Mas imaginem tirar uma criança da rua, dar a ela tratamento, abrigo, comida e amor, e, depois que ela estiver recuperada, simplesmente devolvê-la às ruas. Não é fácil.

Todos pareceram entender e concordar. Mas ninguém se prontificava a ajudar de verdade, ninguém trazia uma palavra que me desse a esperança de conseguir ajuda. O que eu não podia era ficar ali. Atarantada, voltei ao carro para decidir onde acomodaria o bichinho. A mala estava lotada. Ele teria que ir no banco de trás, com mamãe.

Voltei para perto do cachorrinho e, nessa hora, os rapazes mais velhos voltaram a fazer parte do grupo. Perguntaram se eu ia levá-lo. Respondi afirmativamente. Imediatamente, eles tomaram para si a tarefa de me ajudar a carregar o ferido. Foram todos uns amores.

Numa última tentativa de solucionar a questão, falei que provavelmente teria que trazê-lo de volta dentro de alguns dias e que precisaria contar com a ajuda de todos eles. Vendo minha fisionomia aflita e angustiada, eles disseram que eu poderia procurar por eles ali no campinho de futebol, pois todas as tardes eles estão batendo bola por ali.

Carregamos o pacotinho para o carro. O bichinho se deixou levar sem um gemido ou arreganhar de dentes. E olhe que devia estar com muita dor.

Já no carro, fui dirigindo e tentando imaginar um nome adequado para ele. O jogo continuava e o Sport não  conseguia se acertar, continuava apanhando do seu arqui-rival. O único nome que me vinha à mente era Kieza. Kieza, Kieza, Kieza! Mas eu não achava certo batizar meu novo amigo com o nome do artilheiro do adversário. Procurei um nome adequado entre o plantel do Sport, mas nenhum se encaixava direito.

Em certo momento, mamãe pediu que eu olhasse para trás. Enternecida, ela mostrava como o cãozinho tinha se aninhado com a cabeça no colo dela. Ele parecia bem mais tranquilo e seguro agora.  De alguma forma, ele tinha compreendido que estava protegido.

Foi aí que Renan, que também tinha se virado para olhá-lo, falou:

- O nome dele devia ser Harry Potter, por causa desse ferimento na testa, que vai deixar uma cicatriz como a do Harry.

De fato, o atropelamento tinha lhe deixado uma ferida pequena na testa, um pouquinho acima do espaço entre os olhos.

Muito bem. Um detalhe a menos com que me preocupar. O nome ele já tinha. Mas resolvi que seria apenas Potter, para que ele se acostumasse mais rapidamente com o som cada vez que fosse chamado.

Taciturna, fiz o resto do caminho até casa alternando meus pensamentos entre a decepção com o meu time e a preocupação com mais essa criatura que eu estava levando para tratar.

Puxa vida! E se eu não tivesse ido ver o meu tio doente em Maria farinha? E se eu não tivesse saído mais cedo, tivesse esperado pelo final do jogo? E se eu tivesse feito o outro caminho, indo pela beira-mar?

Ora, é verdade que talvez eu tivesse me poupado de mais uma situação estressante. Mas e ele, o Potter? O que teria sido dele? Será que alguém teria tomado alguma atitude para ajudá-lo?

Não, foi bom mesmo que eu estivesse passando por ali naquela hora. Vou me aperriar um bocado, vou ter algumas noites de sono agitado,  mas estou feliz de ter podido diminuir o sofrimento da pobre criaturinha.

Chegando a casa, acomodamos Potter num pequeno oitão coberto da casa de mamãe. Ele ainda estava meio desconfiado, mas não deu qualquer trabalho. Não quis comer, mas eu não insisti, deixei-o sozinho para que se ambientasse melhor. Percebi que estava cheio de carrapatos, e isso foi uma preocupação a mais no meu juízo.  Não posso ficar expondo meus próprios filhotes a esses parasitas, e uma praga de carrapatos é tudo de que eu não preciso agora.

Antes de ir dormir, fui ver Potter mais uma vez. Dessa vez ele comeu um pouco de ração. Fiquei alisando sua cabeça com carinho e ele começou a emitir um sonzinho de satisfação. Cada vez que eu parava, ele puxava graciosamente minha mão com sua pata, pedindo que eu continuasse com os afagos.

Hoje de manhã, aproximei-me do cantinho no oitão onde tinha deixado uma caixa de papelão para servir de abrigo para ele e chamei o seu nome. Ele levantou todo alegre, andando normalmente e balançando o rabo fino. Foi um alívio constatar que suas patas estavam perfeitas.

No meio da manhã, saí para comprar sabonete contra carrapatos e um carrapaticida para pulverizar no ambiente. Esperei o dia esquentar e me preparei para dar um bom banho em Potter. Ele é um doce de cachorrinho,  não esboça qualquer agressividade. Ficou ali tremendo de frio, me olhando com um olhar agradecido, apesar de tudo. É engraçado como ele praticamente entende o que eu falo e como já atende pelo novo nome.

Agora preciso correr na divulgação de Potter. Tenho que vaciná-lo e castrá-lo o mais rápido possível. Não tenciono deixá-lo naquela estrada novamente, a não ser que seja absolutamente necessário.
Não posso largá-lo ali depois de tê-lo feito experimentar carinho, cuidados e atenção. Depois de dar a ele comida numa vasilha limpa e decente. Depois de preparar um lugarzinho quente forrado com papelão para que ele não sinta frio à noite.

Mas a razão me diz que eu também não posso ficar com Potter. Peço a Deus  que me ajude a arrumar alguém que tenha muito amor para dar a ele, alguém que conheça o valor da amizade sincera de um cão e que permita que esse cachorrinho especial possa demonstrar toda a gratidão de que é capaz.