terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Pobre Ferrugem, atacado por um pitbull feroz

Conheci Ferrugem há alguns anos. Ele era um dos quatro cãezinhos de Seu Zezinho (mais conhecido como  Ximbica), um senhor que mora perto de mim e a quem consigo ajudar um pouco, regularmente. Seu Zezinho aposentou-se há dois anos. Ele era varredor das ruas sossegadas da Universidade Federal de Pernambuco. Um homem de coração muito bom, com uma visível deficiência intelectual. Todos os dias, quando largava a vassoura no final da tarde, ia feliz da vida alimentar os cães daquelas redondezas, pedalando sua bicicleta, desviando dos motoristas que raramente respeitam os direitos dos ciclistas. Hoje aposentado, Seu Zezinho ainda sai para alimentar os bichinhos de rua. Seus mesmos, restaram apenas  (um cão resgatado e tratado com o auxílio total de Ariene e seu grupo de voluntárias, cujo tratamento incluiu a cirurgia de retirada de um dos seus olhos, o qual estava praticamente solto na órbita quando ele foi acudido por Seu Zezinho), Ferrugem e outro cachorro que está, pelo que ele me disse, temporariamente abrigado em sua casa.

Sábado passado, Seu Zezinho bateu lá em casa pedindo ajuda mais uma vez. No dia anterior, um pitbull tinha atacado o pobre Ferrugem, um cãozinho pacífico e sem raça definida, velhinho e inofensivo. Na hora do ataque, Ferrugem chegou a desmaiar. A fera não o largava, mesmo recebendo pauladas no dorso.

Fiquei sabendo que esse animal, o pitbull, fica solto pelas ruas de manhã cedo. Vizinhos contaram que um dia desses ele atacou e matou um cavalinho. Esses mesmos vizinhos simplesmente resolveram não caminhar mais pela área nesse horário, e eu me pergunto por que será que as soluções são sempre assim, omissivas, quando as pessoas poderiam fazer algo para efetivamente mudar uma situação difícil, desagradável. Vivendo no meio de uma comunidade assim, numa país que não preza pela educação, onde se fala muito em cidadania, sem que se entenda até onde vai o alcance da palavra, um indivíduo que seja minimamente diferente vira alvo de crítica, de chacota e até de violência.

Levei Ferrugem ao veterinário. Seu estado era lastimável. Além dos talhos sangrando no pescoço, estava com ascite (barriga d'água) e respirava com muita dificuldade. Com doze anos de idade, Ferrugem já devia estar com comprometimento cardíaco, hepático e renal, mas certamente a agressão contribuiu para o agravamento de todo o seu  quadro. Apesar dos cuidados, Ferrugem morreu na última madrugada. A barriga estava cada vez maior e ele não conseguia mais urinar. Pressenti que ele não passaria mais um dia vivo e falei isso a Seu Zezinho. Em casa, fui dormir desassossegada, pedindo a Deus que o levasse logo, com o mínimo de sofrimento. Hoje de manhã, quando passei para visitá-lo, vi no quintal um pacote de tamanho médio, embrulhado num saco de ração - ali estava o pobre Ferrugem. Implorei a Seu Zezinho para enterrá-lo, para não deixar que seu corpo fosse levado pelo caminhão do  lixo, mas não tenho certeza de que o pobre velho vá fazer o que me prometeu.

Desde sábado, tenho falado muito sério com Seu Zezinho. Tenho dito a ele que ele não tem mais condições de ficar criando animais.  Ele é pobre, idoso e está vivendo sozinho. A mulher dele está doente, sofrendo "daquela doença, impressão, que faz as pessoas quererem morrer". Infelizmente, precisei dizer a Seu Zezinho que, embora ele tenha esse coração enorme, ele não pode trazer para casa animais de quem ele não pode cuidar, que ele não pode ficar confiando em mim para resolver os seus problemas. Seu Zezinho não tem discernimento nem mesmo para administrar medicamentos nos horários determinados, e até isso eu tenho que me preocupar em fazer. Só que tem hora que eu não estou disponível, tem hora que eu não estou suficientemente forte para vivenciar esses dramas.

No sábado, depois que deixei Ferrugem de volta em sua casa, ainda indignada com a irresponsabilidade dos donos do pitbull agressor, bati na casa de uma pessoa que sabidamente tem um cão dessa raça. Cheguei lá e falei com a esposa do dono. Cheguei mansamente, contando com tristeza o que havia acontecido e dizendo que eu estava à procura do animal  para explicar aos donos que ele não poderia estar solto pelas ruas, mesmo que fosse às cinco da manhã. A mulher mostrou o animal dela, um pitbull branco, e, surpresa, perguntou se tinha sido ele, coisa que ela duvidava, porque o animal é manso. Eu disse que não conhecia o agressor, mas que tinham falado que ele era preto, então certamente não era o mesmo. Na saída, disse a ela que, se eu estava enganada, que ela antecipadamente me desculpasse.

Voltei pra minha casa e meia hora depois a campainha tocou quatro vezes, com uma insistência mal educada. Corri para abrir o portão e me deparar com o dono do cachorro, um antigo colega de escola, dos meus tempos de menina. O homem estava numa moto, carregando seu cachorro na frente do veículo, ele próprio parecendo um pitbull ameaçador. Perguntou se o cão dele tinha atacado alguém, porque eu tinha à casa dele para fazer a denúncia. Tentei explicar como tudo realmente ocorreu, mas ele só queria falar, gritar e me xingar. Uma verdadeira baixaria. Depois que disse o que quis, deliberadamente ignorando o que eu dizia, saiu chispando com o animal e com sua moto, a qual tem um adesivo de pitbull na frente, acho que para combinar mais com ele do que com qualquer outra coisa. O homem estava visivelmente desequilibrado e eu fiquei sabendo depois que ele bebia muito e que teve que parar de beber para não morrer.

Não consigo aceitar a maneira como esse tipo de problema sempre se desenrola. Nós, que tomamos as dores dos animais, temos que ser vítimas da violência, temos que ser constrangidos e humilhados porque não há um respaldo judicial para quem age de forma correta. Nós somos os estranhos no ninho, não a maioria cruel e insensível. Nós não podemos agir ou denunciar sem temer uma represália à nossa família, à nossa casa, aos nossos próprios animais. Quem deveria ter medo, não tem. Quem desrespeita as leis que protegem os animais dorme tranquilo, enquanto a cada dia o coração dos justos enfraquece e adoece.

Por fim, queria dizer que estou muito cansada, muito cansada, muito cansada. Cansada de ver as coisas ruins acontecerem e se repetirem indefinidamente. Cansada de me indispor com as pessoas, de brigar com gente por causa de bicho. Cansada de sonhar com um mundo cheio de gente boa e consciente, que respeite de verdade gente, bicho e plantas. Cansada de sonhar com o Paraíso.

Zarela