segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Anjo Negro


ANJO NEGRO

Naquele dia, saí do trabalho apressada. Passava um pouco da uma da tarde e eu tinha uma audiência marcada num juizado de pequenas causas ali perto. Fui caminhando pela calçada, ansiosa e preocupada em chegar a tempo para o compromisso.

Poucos metros depois do prédio onde trabalho, quase em frente à Igreja de Santo Antônio, percebi um homem levemente inclinado em direção ao chão. Ele era negro e aparentava estar na faixa dos vinte e poucos anos. Estava mal vestido, eu diria até andrajoso. Tomei-o por um pedinte ou morador de rua.

Fiquei curiosa ao vê-lo naquela posição. Sem perceber, fui diminuindo o passo até conseguir entender o que se passava. Seguindo a direção do seu olhar, vi um pequenino filhote de passarinho encolhido num cantinho perto do muro.

A essa altura eu já tinha parado ao lado da cena que se desenrolava, balbuciando:

- Um passarinho...

O rapaz assentiu, com um leve sorriso triste e preocupado. Ele falava num português hesitante, com forte sotaque estrangeiro cuja origem eu não consegui identificar. Disse-me que estava ali tomando conta do bichinho para que nada de mal lhe acontecesse.

O relógio não tinha parado, os minutos continuavam a passar.

Vum, vum, vum. Meu cérebro deu três voltas completas em meio segundo.

O filhotinho não podia ficar ali desprotegido e eu não podia ajudá-lo naquele momento. Voltei-me para o rapaz negro e falei:

- Moço, eu preciso resolver um problema aqui perto, mas logo estarei de volta. O senhor poderia tomar conta dele até eu voltar?

Mais uma vez ouvi a voz mansa do rapaz, desta vez levemente mais animada, comprometendo-se a esperar por mim.

Saí dali ainda mais apressada, agora que estava ciente de ter perdido alguns minutos que poderiam frustrar o planejamento que eu tinha feito inicialmente.

Consegui chegar a tempo para a audiência e, depois de uma conciliação frustrada, refiz meu caminho de volta até o muro da igreja.

O filhotinho de asas continuava no mesmo lugar e pulava alegremente de um lado para o outro, sem se afastar do seu guardião. O rapaz me ajudou a colocá-lo cuidadosamente dentro de uma caixa de sapato que eu tinha conseguido numa sapataria quando fazia o caminho de volta.

Depois de fazer vários furinhos na caixa de papelão para permitir que o passarinho respirasse normalmente, e depois de fechá-la com fita crepe para assegurar que ela não se abrisse no caminho, encaminhei-me para o ponto do ônibus, onde pouco tempo depois embarquei no veículo que me levaria para casa.

Quarenta minutos depois, ao descer na minha parada, eu já sabia exatamente o que deveria fazer. Fui diretamente à casa de uma vizinha que adora passarinhos e que está acostumada a cuidar deles. Contei tim tim por tim tim tudo o que  tinha acontecido, e com alívio deixei aquele pequeno serzinho nas mãos de Cleide, pedindo encarecidamente que ela cuidasse dele até que ele pudesse voar sozinho, mas fazendo-a prometer que o deixaria livre assim que isso acontecesse.

Depois disso, dirigi-me finalmente à minha própria casa, satisfeita com mais um final de aventura  afortunado.

Nos dias que se seguiram, procurei em vão por aquele rapaz na rua do meu trabalho. Queria contar a ele o final feliz e mostrar que tinha valido a pena todo o cuidado que ele tinha dedicado à pequena ave. Queria que ele desfrutasse da especial recompensa que só experimenta quem é sensível e consegue perceber o que a maioria simplesmente não enxerga. Mas ele já não estava mais por lá.

Os mesmos pedintes continuaram se aglomerando na frente da Igreja de Santo Antônio - homens, mulheres e crianças maltrapilhas implorando por trocados e por um pedaço de pão -, mas nunca mais eu vi aquele homem de sotaque forasteiro.

Depois de algum tempo, aquele episódio foi redimensionado na minha mente e eu comecei a pensar que tudo aquilo parecia muito curioso. Um indivíduo que eu nunca tinha visto antes e que nunca mais voltei a ver, um homem de pele escura e fala mansa, de sotaque diferente e de origem desconhecida. Um pedinte sensível e amoroso, que tinha aparecido e desaparecido sem deixar vestígios.

E eu, que sempre vivi à procura de sinais divinos e recados de outro mundo, passei a acreditar que aquela criatura tinha sido nada mais nada menos que um anjo negro que tinha cruzado o meu caminho sem fazer alarde. Um anjo negro como tantos outros que devem andar despercebidos no meio de nós, ajudando-nos a cuidar dos animais indefesos que Deus colocou ao nosso lado aqui na Terra.

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ZD 15/10/2012